A crescente popularização das apostas online no Brasil tem gerado um impacto significativo na saúde mental dos trabalhadores, refletido em um aumento alarmante nos afastamentos por ludopatia, ou vício em jogo. Dados recentes divulgados pelo g1, em colaboração com a Previdência Social, revelam que 2026 já contabiliza 377 afastamentos até agosto, superando os 312 do ano anterior. O custo associado a esses benefícios também disparou, atingindo a marca de R$ 1,9 milhão apenas até agosto deste ano.
Esse fenômeno está intimamente ligado à regulamentação das casas de apostas, que começou em 2018. Antes da popularização das bets, o Brasil registrava, em média, apenas dez afastamentos anuais por ludopatia. Contudo, a situação mudou drasticamente após a liberalização do setor, com os afastamentos subindo exponencialmente nos últimos anos. A Previdência alerta que esses números podem ser ainda maiores, já que muitos casos não são oficialmente registrados devido a subnotificações.
Os especialistas em saúde mental destacam que a ludopatia pode desencadear uma série de problemas, como ansiedade e depressão, que muitas vezes são catalogados sob outros diagnósticos. A psiquiatria reconhece a ludopatia como uma doença desde 1980, mas a tecnologia moderna, especialmente a acessibilidade proporcionada por smartphones, intensificou o problema. O acesso constante ao jogo tem dificultado o tratamento e a recuperação dos afetados.
Histórias como a de Vitória Macedo, que perdeu mais de R$ 30 mil em apostas online e precisou se afastar do trabalho para tratamento, exemplificam os danos financeiros e emocionais que o vício pode causar. A falta de pesquisas atualizadas sobre a ludopatia no Brasil deixa uma lacuna significativa na compreensão do problema, mas um estudo da Universidade Federal de São Paulo (USP) já indicava que cerca de 1,4 milhão de brasileiros apresentavam comportamentos problemáticos relacionados às apostas.
Além disso, a recente proibição das apostas online, através de uma medida provisória, levanta questões sobre a eficácia de tais regulamentações. Embora as empresas aleguem que práticas responsáveis poderiam ajudar a mitigar o vício, casos de assédio a apostadores com dificuldades, como o que envolve a BetBoom, indicam que nem sempre as regras são seguidas. A pressão sobre o sistema público de saúde também é crescente, com a demanda por atendimento em saúde mental aumentando de forma alarmante.
Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que a população trabalhadora está cada vez mais vulnerável a esses problemas. O SUS, apesar de esforços recentes para expandir o atendimento em saúde mental, ainda enfrenta grandes desafios para lidar com a demanda crescente de indivíduos afetados pelo vício em apostas. Nesse contexto, é imperativo que a sociedade e os órgãos reguladores atuem em conjunto para enfrentar essa crise de saúde pública.



